Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

A propósito da verdade histórica.


A História, mesmo a mais séria, baseada em documentos (oficiais ou não) pode ser falsificada: por erro crasso involuntário, por ignorância ou jactância do produtor do documento, por propósito inconfessado do autor, ou simples mitomania, mesmo.

Daqui resulta a necessidade de diversificar a pesquisa, consultanto o maior número de documentos preferencialmente coevos do aconteciento que pretendemos relatar, de fontes diferentes, criticando depois o próprio documento interna e externamente.

Temos exemplos diários de lapsos fortuitos. Quem nunca foi a uma Conservatória e a um Notário sem ter notado uma incorrecção qualquer ou dos factos ou das datas, pode viver iludido com a veracidade absoluta dos documentos, mesmo oficiais (tantas rasuras e emendas têm de ser registadas às vezes no próprio documento ou solicitadas em novas certidões ou apêndices rectificativos). Quem já lidou com isto, sabe que tem de ser prudente, desconfiado mesmo, quando lê ou ouve um testemunho.

Num assento feito à margem do meu Registo de Nascimento, está preto no branco, que eu casei em 20 de Julho de 1938. Um fenómeno de precocidade, já que naquela data era ainda a minha mãe que me transportava na sua gravidez.

Outro exemplo: As actas da câmara provam só o que lá está, isto é, o que lá está escrito, não o que aconteceu na realidade, tantas vezes são rectificadas, escritas e reescritas. Sem dolo, só por que é assim que é costume proceder.

As da Assembleia Municipal, pelo menos nos anos em que lá debitei discurso, não retratavam de maneira nenhuma, a vivacidade nem o conteúdo dos debates. Pela acta nunca se chegava ao âmago dos assuntos discutidos. Presumo que, actualmente, também nenhum dos seus membros possa reconhecer na acta de qualquer sessão, a sessão propriamente dita. Isto sem dolo de ninguém sobre ninguém. Estas falhas enraízam na falibilidade da memória humana e nas teorias socais e psicológicas do testemunho.

Daí que tudo o que está escrito ou que eu escreva sobre Pombal, necessite de crítica e acrescentamento. Dizem os especialistas que a História é uma ciência inacabada, eternamente truncada e tão contingente quanto a memória dos humanos.

Exemplo de uma acta da Junta de Freguesia, disponível na internet, e que não diz rigorosamente nada de substancial:

 

«3 – Projecto de Execução da Empreitada “Ligação da pedreira ao IC8 –Variante do Barrocal”

---------- O Executivo tomou conhecimento do projecto deliberando por unanimidade, proceder ao acompanhamento do licenciamento da obra, nomeadamente junto da Câmara Municipal de Pombal, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, IEP e ICN. ---------------------------------------------------------------------------»

Repararam no negrito? Onde está transcrito o conteúdo do projecto para que se possa ajuizar da qualidade da deliberação?

São lacunas destas que tornam a História, baseada em documentos, tão falível.

 

sinto-me: Erudito
publicado por MaiaCarvalho às 20:04
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