Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

A IGNORÂNCIA TEM DESTAS COISAS

O Convento e a sua Igreja têm sofrido tantas agressões ao longo da História que hoje, ao que tudo indica, nem os herdeiros do Conde de Castelo Melhor, querem saber de Pombal, que foi comenda e alcaidaria-mor da familia durante gerações. Certamente do Séc. XIV ao XVIII.

Luís de Vasconcelos e Sousa tinha grandes propriedades em Lisboa. Grande parte do que é hoje os Restauradores e o início da Avenida da Liberdade, na freguesia e S. José, eram pertença sua. Ainda hoje desemboca na Praça dos Restauradors, a Rua dos Condes, onde, antes do Terramoto de 1755, teve o seu palácio, de um lado da Rua, o Conde de Castelo Melhor e do outro lado, onde hoje está o que resta do velho cinema Condes e a sede da EPAL (Empresa Pública de Águas de Lisboa), o Conde da Ericeira, que mais tarde seria tornado Marquês do Louriçal.

Já no fim da sua curta mas brilhante carreira de Valido (Escrivão da Puridade ou 1.º Ministro) de D. Afonso VI, atribuíu o ter escapado a um atentado, que lhe haviam preparado para quando fosse à missa, como era seu hábito, todos os Sábados, ao Convento do Beato, a milagre por intercessão do Beato António da Conceição. Nesse Sábado, qualquer instinto lhe disse para não ir e o atentado gorou-se. D. Luís de Vasconcelos e Sousa tinha grande devoção por aquele frade, nascido em Pombal, já então beatificado e que muitos em Portugal julgavam que, logo que passassem as pendências que o Reino ainda mantinha com a Santa Sé, devido à nossa luta pela Independência face à Espanha.

Pedro, irmão do rei, queria ficar-lhe com o Reino e com a mulher. O Conde Castelo Melhor era a força de D. Afonso VI, fraco de saúde e de espírito mas que se ia aguentando muito bem sob a judiciosa governação do seu Ministro. Instigado pela Rainha que, diga-se de passagem, era voz corrente, se havia apaixonado pelo morenaço cunhado assim que desembarcou em Lisboa, D. Pedro afastou-o da corte e mandou mesmo que o perseguissem ou matassem. Maria Francisca Isabel de Sabóia preferia esta última alternativa, mas o Conde fugiu de Lisboa. De seguida, D. Pedro mandou prender o Rei e conseguiu que as Cortes o considerassem incapaz, enquanto D. Maria Francisca afirmava solenemente que o casamento com D. Afonso não havia sido consumado e pedia a anulação do matrimónio, o que conseguiu, para casar com o cunhado e continuar Rainha.

Foi um longo percurso que D. Luis de Vasconcelos fez desde Lisboa até Pombal e daqui para a Espanha, Itália e finalmente Inglaterra, onde encontrou merecido acolhimento junto da esposa de Carlos II de Inglaterra, D. Catarina de Bragança, que nunca aceitou a cunhada, nem o que o irmão, Pedro, havia feito ao irmão Afonso.

Foi nessa viagem que se deu outro milagre (este Conde de Castelo Melhor era um homem quase fanaticamente religioso, atribuindo quase tudo o que lhe acontecia a santos e santas protectoras), o de conseguir escapar com vida e sem ser visto pelas tropas de rei que, vindas de Lisboa, o procuravam na sua terra de Pombal, para, a mando da Rainha, acabarem com ele.

No seguimento desse acontecimento, prometeu construir o Convento e a Igreja, para nela dar acolhimento decente à sua salvadora, Nossa Senhora do Cardal, recolhida numa capela muito pobre que, nesse tempo, existia, no limite da Vila, junto ao Cardal.

Só depois da morte de D. Maria Francisca Isabel, ele teve ordem do rei D. Pedro II para regressar a Portugal. Estava-se no ano de 1685. Lembrado das suas promessas começou a desenvolver as acções necessárias à construção do Convento. Não foi fácil. Os terrenos onde queria instalar o convento não eram dele. Teve de os comprar e os seus proprietários já tinham no sangue a veia especularora que ainda hoje domina (um apartamento com a mesma área e tipologia é muito mais caro em Pombal do que, por exemplo, nas Caldas da Rainha), e os preços tornaram-se exorbitantes.

Mas, mesmo que ficasse mais pobre, o rico Conde queria levar a obra para diante. Lembrado da Ordem religiosa a que petencera o beato pombalense, que milagrosamente lhe havia salvo a vida em Lisboa, quis que a casa religiosa que projectava, fosse tomada pelo Lóios, padres de S. João Evangelista, e homenagear assim, na mesma Igreja, os seus dois santos protectores. Contudo, estes padres Lóios acharam que o convento era pequeno demais e ainda mais pequena a cerca que nem podia ser alargada por causa das ribeiras que com ela confinavam.

Rejeitado por estes padres, os franciscanos, bastante mais modestos, aceitaram-no e foram eles que dedicaram a Igreja a S. António de Lisboa, com imagem em lugar de destaque no Altar-Mor, de onde foi recentemente apeada para uma modesta capela lateral.

Hoje, qualquer descendente do fundador do convento teria muita dificuldade em localizar o túmulo do seu antepassado Diogo de Sousa e Vasconcelos, primeiro cadáver a ser sepultado, naquela igreja, em 8 de Maio de 1710.

Por isto, vou abandonar por algum tempo a História do Convento de S. António do Cardal e dedicar-me a uma outra lenda que envolve o mesmo Conde.

É uma outra capela, construída a poucos quilómetros de Albergaria dos Doze, no lugar do Estreito, que pertence a duas freguesias do Concelho de Ourém - Casais Bernados e Urqueira. Falaremos ainda de uma grande propriedade que o Conde possuia no Carregado e que se estendia até aos pântanos onde recentemente o governo «JAMAIS» queria construir um aeroporto, na Ota.

publicado por MaiaCarvalho às 10:30
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4 comentários:
De MaiaCarvalho a 15 de Fevereiro de 2011 às 11:12
Este texto foi escrito um pouco em cima do joelho. Está confuso e gramaticalmente mal estruturado. Peço desculpa e prometo com mais vagar editá-lo correctamente. Dá, no entanto, para compreender que as autoridades competentes foram pouco sábias ao não acompanharem empenhadamente as obras de beneficiação da Igreja.
De MaiaCarvalho a 15 de Fevereiro de 2011 às 17:09
Pronto. Corrigido e aumentado.
De Nelson Pedrosa a 17 de Fevereiro de 2011 às 11:58
Muito bom professor! O facto do Santo António ter sido retirado da Capela-Mor deve-se a uma teimosia do Sr. Reverendo de Pombal, coadjuvada por um outro iluminado Padre especialista (?!) da Figueira da Foz!
Nos autos em que se solicita ao Rei autorização para a construção da Igreja do Cardal pelo Conde de Castelo Melhor é informado que a intenção era a de dar melhor moradia a Nossa Senhora do Cardal e de sepultar seu pai e o Beato António. O Beato António nunca lá foi sepultado, quanto a seu pai, não sei... Mas certo é que a igreja é dedicada a Nossa Senhora do Cardal e ela sim deveria permanecer na Capela-Mor...
Além disso supostamente, junto ao Cristo morto, por ideologia do Sr. padre deveria estar um "tau" e eu vejo lá uma cruz latina... talvez tenham esquecido cortar o excedente da coluna vertical ...
De MaiaCarvalho a 18 de Fevereiro de 2011 às 12:03
Obrigado, Nelson. Sei que tem aturadamente estudado o Convento do Cardal. Espero com muito interesse que o dê à estampa. saudações amigas.

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